sábado, 22 de dezembro de 2007

Baia e os Rockboys

Tarde!

Venho interromper a minha indiferença para com este mísero blog simplesmente em consideração ao alter-ego de um camarada meu que veio encarecidamente solicitar a postagem de Baia e os Rockboys!
"Reupei" a coletânea que vinha já postada no blog e que havia tristemente expirado por falta de acessos. Agora é só entrar lá no link que estará disponível, embora, agora, em duas partes.

Abraço!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Móveis Coloniais de Acaju

É o EP e o disco de estréia dos esquisitos aqui debaixo. Sem preâmbulos introdutórios de convencimentos.















Downloadeie o EP

Downloadeie o disco Idem

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Espírito do Blog?

Se vocês alguma vez se dispuseram a ler o que está escrito embaixo do título deste blog, verão que ao final do infame texto eu afirmo sem certeza que talvez ou porventura possa vir a ser circense o espírito virtual do mesmo. Sem segurança afirmava isso não só porque eu criei este blog sem propósito nenhum, mas também porque não tinha como fazer nenhuma relação entre o título que eu saquei das linhas do Cervantes e o conteúdo de uma página de internet que eu não tinha a menor idéia de como preencher.

De tal maneira que, embora esteja registrado que possivelmente este blog teria espírito itinerantemente circense, em nenhum momento, em nenhuma postagem você encontrará referência a qualquer palhaço, a qualquer acrobata, nem mesmo a uma estrutura de lona sequer.

O que também se destaca é que, embora este fato seja por si só escancaradamente claro, ninguém sequer notou, ou se notou, não teve a intenção benfazeja de me alertar. Porque, se alguem o tivesse feito, talvez eu me importasse com a consideração e colocaria uma foto de uma lona de circo no blog. Para manter as aparências. Mas não, nem isso!

Eu entendo. Vocês são como eu. Vão entrando nos blogs por aí. Catando freneticamente tudo aquilo que lhes convém, sem deixar um recadinho de agradecimento, umas míseras e gratuitas palavras de consideração. Ingratos!

Só para manter as aparências, segue um retrato que possa representar minimamente o até agora faltante espírito do blog.

Saudações.

Diálogo

Por Criscalina

– Aqui tem soim, sabia?

– Tem é?

– Tem.

– Tem mesmo. Eu já vi, ali, naquela árvore, pulando praquela outra.

– Aqui tem soim... tem cobra e tem besouro também?

– Tem. Aqui tem todo tipo de bicho.

– Tem índio?

– Hã?!

– Tem índio?

– Não, não, não. Índio não é bicho. Índio é pessoa.

– É?

– É.

– Mas aqui deve de ter índio. Índio mora no mato; e aqui né mato!

– É, mas esse mato não tem graça.

– Não tem por quê?

– Porque esse mato é de dentro da cidade, não tem graça não mato na cidade, tem não.

– Mas os índios devem morar aqui; eles moram em floresta.

– Mas aqui não tem índio não! São umas florestas mais pracolá, onde eles vivem, as que prestam...

– Essa floresta é do pânico, é?

– ?

– É, essa floresta deve ser do pânico...

– É não, é não. Essa floresta é a floresta do Parque do Cocó.

– Tem parque aqui, tem?

– Tem, tem uns brinquedos ali, mais pra adiante.

– É, tem mesmo...

– ...

– Mas o polícia não deixa eu brincar lá não, deixa não, ele disse que eu não posso!

– ...

– Não deve de ter graça também, né?

– ...

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Creedence - Discografia

Disco 1: 1961-1967 (Pré-Creedence) Aqui

Disco 2: 1967-1969 Aqui

Disco 3: 1969 Aqui

Disco 4: 1970 Aqui

Disco 5: 1970-1972 (Estúdio + Ao Vivo) Aqui

Disco 6: 1970-1971 (Ao Vivo) Aqui

The Feitos - Na cabeça da Chorona

Desculpem os meninos pelo trocadilho que o nome pelo qual eles escolheram serem chamados. Não obstante essa infelicidade, os três meninos são bons. Seus sons são bons (agora, desculpem a mim pelo trocadilho. Deixei em itálico para quem não percebeu.)
O disco deles é bem legal. Especialmente pela faixa "disco do roberto" e "um dia você vai querer me beijar" e algumas outras que eu não lembro o nome.

Aproveitem. É de graça, for god sake!





Por gentileza, aqui!

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Orquestral Imperial - Carnaval só no Ano que Vem

Pois é, gente. Quando a gente começa a sentir mais um fim de ano chegar, começa a perceber que mais uma ano se passou e não fizemos nada para deixar marca na história. Falo isso por mim, é claro, sem a pretensão de me postar como porta-voz de vocês. Mas, se a carapuça servir, que assim seja.

Eu, por mim, digo que, neste ano que vem passando e acabando, eu não plantei nenhuma árvore, não fiz nenhum filho e nem escrevi nenhum livro. Alguns amigos até me elogiaram por algumas linhas estapafúrdias que escrevi neste blog. Abre parêntesis: palavra estranha esta "estapafúrdia". Se é grande assim e soa assim em português, imagina quão grande será e quão esquisito soará em alemão. Fecha parêntesis. Bom, mas, plagiando o Oswaldo, "não era isso que eu queria falar, queria falar" da Orquestra Imperial.


Quem vem acompanhando este blog, já deve ter lido em algum lugar que eu admiro aqueles grupos que conseguem fazer um som very nice com apenas três integrantes. Mas, quando em vez, acordo assoviando músicas clássicas retiradas por britadeiras sinapsuosas do fundo perdido da memória. Não sei se expressei a idéia. O fato é que de clássico, eu sei duas músicas: uma é a nº 666 mother fuc... do Beethoven e a outra é aquela do "V de Vingança". Para um pulha em música erudita como eu, nada melhor do que dizer que gosto do som de um grupo que atende
pela alcunha de "Orquestra Imperial". E melhor, porque a música é cantada. E em português.

Enfim, para quem se encontra mais ou menos na mesma posição que eu, vai lá a dica. É legal. Vale a pena conferir. Ah, e não tem nada de música clássica no som desse pessoal, a não ser a quantidade de membros.

Cordialmente,

Alifanfarrão.

PS: os Pentapolins estão de castigo por tempo indeterminado e só saem do quarto quando eu mandar!

01. O mar e o Ar
02. Não foi em Vão
03. Ereção
04. Jardim de Alah
05. Rue de Mes Souveniers
06. Yarusha Djaruba
07. Era bom
08. Salamaleque
09. Ela Rebola
10. De uma Amor em Paz
11. Supermercado do Amor


Por gentileza, por aqui!

Oswaldo Montenegro - A Partir de Agora (2006)

01. Sexo
02. Vamos Celebrar
03. Do Muito e do Pouco
04. Flor da Idade
05. Ruína de Sol
06. O Sexo dos Anjos
07. Cavalo de Pau
08. O Azul e o Tempo (A Partir de Agora)
09. Nem todo Alceu é Valença
10. Virgem
11. Poema Quebrado
12. Madrugou
13. Quando a gente Ama
14. A Incrível História de Mauro Shampoo (Bônus Track)




Faz favor, tenha a bondade, por aqui!

Oswaldo Montenegro - 25 Anos

CD 1
01. Chão, pó, poeira / Boa noite
02. Intuição
03. Sem mandamentos
04. Cigana
05. Ramalheando - Admirável Gado Novo
06. Se puder sem medo
07. Metade
08. Faça - Um dia de domingo
09. Hoje Anida é dia de rock
10. Sempre não é todo dia

CD 2
01. Simpatia de Giz
02. Taxímetro
03. Todo mundo é lobo por dentro
04. Drops de Hortelã
05. Travessuras
06. Estrelas
07. Lua e flor - Agonia
08. Léo e Bia - História Estranha
09. A Lista
10. Baioque - Um bilhete para Didi
11. Quebra - Cabeça sem luz
12. Bandolins



Tenha a bondade de baixar este disco aqui, por favor!

Obrigado!

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Elvis Presley - Discografia Completa

A pedidos do camara El Cuesta, coloco aí pra galera a discografia completa do Elvis. É o seguinte, o link deve ser aberto com o Internet Explorer. Ao clicar no botãozinho do download que abrirá, aparecerá uma tela pedindo para instalar um programinha bem pequeninho. Pode instalar que não tem nada não.
Depois disso, vocês terão que baixar parte por parte. É um total de 1,648.53 Mb. Por isso, guardem bem o endereço.

Grande Abraço a todos. Bom feriadão!

Recomendações minhas aos seus.

Discografia Completa do Elvis

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Zeca Baleiro e Parceiros - "Ode Descontínua e Remota para Flauta e Oboé"

Poemas de Hilda Hilst musicados por Zeca Baleiro e contando com a participação de vários intérpretes.

01. Canção I - com Rita Ribeiro
02. Canção II - com Veronica Sabino
03. Canção III - com Maria Bethânia
04. Canção IV - com Jussara Silveira
05. Canção V - com Angela RoRo
06. Canção VI - com Ná Ozetti
07. Canção VII - com Zélia Duncan
08. Canção VIII - com Olívia Byington
09. Canção IX - com Mônica Salmaso
10. Canção X - com Ângela Maria


Downloadeie este disco

Zeca Baleiro - Áudio do Show "Líricas"

01. Filosofia
02. Minha Casa
03. Comigo
04. Bandeira
05. Banguela
06. Meu Amor Meu Bem Me Ame
07. Babylon
08. Quase Nada
09. Blues do Elevador
10. Stephen Fry
11. Soneto Erótico
12. Skap (Menos Sozinho)
13. One More Cup Of Coffee Flor da Pele, Vapor Barato
14. TV a Cabo
15. Dodói
16. Proibida Pra Mim
17. Tem Que Acontecer
18. Você Só Pensa Em Grana
19. Lenha
20. Heavy Metal do Senhor
21. Bienal
22. Samba do Approach
23. Nalgum Lugar

Downloadeie este disco (corrigido)

Zeca Baleiro & Fagner - DVD-Áudio (2003)

01. Três irmãos
02. Balada de Agosto
03. Azulejo
04. Flor da Pele / Revelação
05. Dezembros
06. Não Tenho Tempo
07. Natureza Noturna
08. Frenesi
09. Um Real de Amor
10. Quase Nada
11. Proibida Pra Mim
12. Fanatismo
13. Canção Brasileira
14. Amor Escondido
15. Quem Me Levará Sou Eu
16. Você Só Pensa em Grana
17. Canhoteiro
18. Daqui Pra Lá De Lá Pra Cá
19. Palavras e Silêncios
20. Babylon
21. Último Pau de Arara
22. Cantor de Bolero
23. Noturno
24. Lenha
25. Mucurip
e

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Zeca Baleiro - Pet Shop Mundo Cão (2002)

1. Minha Tribo Sou Eu (Zeca Baleiro)
2. Eu Despedi O Meu Patrão (Zeca Baleiro e Capinan)
3. O Hacker (Zeca Baleiro)
4. Telegrama (Zeca Baleiro)
5. Mundo Dos Negócios (Zeca Baleiro)
6. Guru Da Galera (Zeca Baleiro e Fernando Abreu)
7. Drumembêis (Zeca Baleiro)
8. Um Filho E Um Cachorro (Zeca Baleiro)
9. Fiz Esta Canção (Zeca Baleiro e Mathilda Kovak)
10. As Meninas Dos Jardins (Zeca Baleiro)
11. Mundo Cão (Zeca Baleiro e Sérgio Natureza)
12. Filho De Véia (Luiz Américo e Braguinha)
13. A Serpente (Zeca Baleiro, Ramiro Musotto e Celso Borges)
14. Meu Nome É Nelson Rodrigues (Zeca Baleiro e Érico Theobaldo)


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Zeca Baleiro - Líricas (2000)

1. Minha Casa (casa (Zeca Baleiro)
2. Comigo (Zeca Baleiro)
3. Proibida pra Mim (Chorão, Marcão, Champignon, Thiago e Pelado)
4. Babylon (Zeca Baleiro)
5. Balada para Giorgio Armani (Zeca Baleiro)
6. Boi (Zeca Baleiro)
7. Nalgum Lugar (Poema de E.E. Cummings; Tradução: Augusto de Campos; mus: Zeca Baleiro)
8. Quase Nada (Zeca Baleiro e Alice Ruiz)
9. Você só Pensa em Grana (Zeca Baleiro)
10. Banguela (Zeca Baleiro)
11. Blues do Elevador (Zeca Baleiro)
12. Bigitte Bardor (Zeca Baleiro)



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Zeca Baleiro - Vô Imbolá (1999)

1. Vô imbolá (Zeca Baleiro)
2. Pagode Russo (Luiz Gonzaga e João Silva)
3. Meu Amor Meu Bem me Ame (Zeca Baleiro)
4. Lenha (Zeca Baleiro)
5. Semba (Zeca Baleiro)
6. Bienal (Zeca Baleiro)
7. Nega Tu Dá no Couro (Zeca Baleiro)
8. Piercing (Zeca Baleiro)
9. Tem que Acontecer (Sérgio Sampaio)
10. Boi de Haxixe (Zeca Baleiro)
11. Disritmia (Martinho da Vila)
12. Não Tenho Tempo (Zeca Baleiro)
13. Samba do Approach (Zeca Baleiro)
14. Maldição (Zeca Baleiro)


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Zeca Baleiro - Por Onde Andará Stephen Fry? (1997)

1. Heavy Metal do Senhor (Zeca Baleiro)
2. Bandeira (Zeca Baleiro)
3. Mamãe Oxum (Domínio Público)
4. Salão de Beleza (Zeca Baleiro)
5. Flor da Pele (Zeca Baleiro)
6. Essas Emoções (Donato Alves)
7. Stephen Fry (Zeca Baleiro)
8. O Parque de Juraci (Zeca Baleiro)
9. Pedra de Responsa (Zeca Baleiro e Chico César)
10. Kid Vinil(Zeca Baleiro)
11. Skap (Zeca Baleiro)
12. Dodói (Zeca Baleiro)
13. Heavy Metal do Senhor - vinheta (Zeca Baleiro)



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terça-feira, 6 de novembro de 2007

Polêmicas Rolexianas

E aí, rapaziada! Souberam? Souberam não? Então, estavam como eu. Até agora. De agora em diante, os senhores que estavam alheios à maior polêmica das atualidades tupiniquins (juntamente à discussão da CPMF) poderão agora dela emitir as mais variadas e pessoais opiniões.

O caso é o seguinte. O Luciano Huck, marido da Angélica (aquela da manchinha na coxa! Lembra não? Aquela do "vou de taxi"! Lembrou? Essa mesma), foi vítima da violência a que todos nós somos prováveis alvos. Quer dizer, todos nós "vírgula". Já explico. Esses dias atrás, roubaram dele um rolex. Aquele relógio de ouro caro pra daná. Ele ficou puto. Como assim roubar um relógio daquele valor? E dele? Uma das maiores personalidades da paróquia brazuca. Será que os assaltantes não o reconheceram? Acho difícil.

Pois bem, dando vazão a toda sua indignação momentânea que antecedeu a compra de outro rolex, o dono do "caldeirão" escreveu um artigo na Folha de S. Paulo, reclamando da violência, da falta de segurança, do atentado à propriedade da qual ele tinha sido vítima.

Entenderam o por quê da "vírgula"? Não. Faz assim... que horas são? Olhe pro seu braço e veja se nele tem um rolex. Usou o celular, meu amigo? Está explicado.

Passado um tempo, o Ferréz, escritor de literatura "marginal" e que mora numa favela de São Paulo, escreveu um outro artigo no mesmo jornal romanceando o acontecido com o apresentador global. Isso gerou um bafafa danado. Houve respostas do Luciano e de um tal de Reinaldo Azevedo, articulista da "Veja". Como não leio a Folha de São Paulo e nem a Veja, não soube da ocorrência. Mas me deparei agora mesmo com o texto do Zeca. Ou melhor com o segundo texto dele, que é uma resposta a todos os outros. É o texto que vocês encontram abaixo. Dá pra ter uma noção sobre o teor das discussões.

Mas não parou nisso não. Depois da carta do Zeca teve a resposta do tal Reinaldo da "Veja". Que pode ser encontrada aqui.

Aproveitem.

Zeca Baleiro - O Rolo do Rolex

NO INÍCIO do mês, o apresentador Luciano Huck escreveu um texto sobre o roubo de seu Rolex. O artigo gerou uma avalanche de cartas ao jornal, entre as quais uma escrita por mim. Não me considero um polemista, pelo menos não no sentido espetaculoso da palavra. Temo, por ser público, parecer alguém em busca de autopromoção, algo que abomino. Por outro lado, não arredo pé de uma boa discussão, o que sempre me parece salutar. Por isso resolvi aceitar o convite a expor minha opinião, já distorcida desde então.

Reconheço que minha carta, curta, grossa e escrita num instante emocionado, num impulso, não é um primor de clareza e sabia que corria o risco de interpretações toscas. Mas há momentos em que me parece necessário botar a boca no trombone, nem que seja para não poluir o fígado com rancores inúteis. Como uma provocação.


Foi o que fiz. Foi o que fez Huck, revoltado ao ver lesado seu patrimônio, sentimento, aliás, legítimo.
Eu também reclamaria caso roubassem algo comprado com o suor do rosto. Reclamaria na mesa de bar, em família, na roda de amigos. Nunca num jornal .
Esse argumento, apesar de prosaico, é pra mim o xis da questão. Por que um cidadão vem a público mostrar sua revolta com a situação do país, alardeando senso de justiça social, só quando é roubado? Lançando mão de privilégio dado a personalidades, utiliza um espaço de debates políticos e adultos para reclamações pessoais (sim, não fez mais que isso), escorado em argumentos quase infantis, como "sou cidadão, pago meus impostos". Dias depois, Ferréz, um porta-voz da periferia, escreveu texto no mesmo espaço, "romanceando" o ocorrido. Foi acusado de glamourizar o roubo e de fazer apologia do crime.

Antes que me acusem de ressentido ou revanchista, friso que lamento a violência sofrida por Huck. Não tenho nada pessoalmente contra ele, de quem não sei muito. Considero-o um bom profissional, alguém dotado de certa sensibilidade para lidar com o grande público, o que por si só me parece admirável. À distância, sei de sua rápida ascensão na TV. É, portanto, o que os mitificadores gostam de chamar de "vencedor". Alguém que conquista seu espaço à custa de trabalho me parece digno de admiração.


E-mails de leitores que chegaram até mim (os mais brandos me chamavam de "marxista babaca" e "comunista de museu") revelam uma confusão terrível de conceitos (e preconceitos) e idéias mal formuladas (há raras exceções) e me fizeram reafirmar minha triste tese de botequim de que o pensamento do nosso tempo está embotado, e as pessoas, desarticuladas.


Vi dois pobres estereótipos serem fortemente reiterados. Os que espinafraram Huck eram "comunistas", "petistas", "fascistas". Os que o apoiavam eram "burgueses", "elite", palavra que desafortunadamente usei em minha carta. Elite é palavra perigosa e, de tão levianamente usada, esquecemos seu real sentido. Recorro ao "Houaiss": "Elite - 1. o que há de mais valorizado e de melhor qualidade, especialmente em um grupo social [este sentido não se aplica à grande maioria dos ricos brasileiros]; 2. minoria que detém o prestígio e o domínio sobre o grupo social [este, sim]".


A surpreendente repercussão do fato revela que a disparidade social é um calo no pé de nossa sociedade, para o qual não parece haver remédio -desfilaram intolerância e ódio à flor da pele, a destacar o espantoso texto de Reinaldo Azevedo, colunista da revista "Veja", notório reduto da ultradireita caricata, mas nem por isso menos perigosa. Amparado em uma hipócrita "consciência democrática", propõe vetar o direito à expressão (represália a Ferréz), uma das maiores conquistas do nosso ralo processo democrático. Não cabendo em si, dispara esta pérola: "Sem ela [a propriedade privada], estaríamos de tacape na mão, puxando as moças pelos cabelos". Confesso que me peguei a imaginar esse sr. de tacape em mãos, lutando por seu lugar à sombra sem o escudo de uma revista fascistóide. Os idiotas devem ter direito à expressão, sim, sr. Reinaldo. Seu texto é prova disso.


Igual direito de expressão foi dado a Huck e Ferréz. Do imbróglio, sobram-me duas parcas conclusões. A exclusão social não justifica a delinqüência ou o pendor ao crime, mas ninguém poderá negar que alguém sem direito à escola, que cresce num cenário de miséria e abandono, está mais vulnerável aos apelos da vida bandida. Por seu turno, pessoas públicas não são blindadas (seus carros podem ser) e estão sujeitas a roubos, violências ou à desaprovação de leitores, especialmente se cometem textos fúteis sobre questões tão críticas como essa ora em debate.


Por fim, devo dizer que sempre pensei a existência como algo muito mais complexo do que um mero embate entre ricos e pobres, esquerda e direita, conservadores e progressistas, excluídos e privilegiados. O tosco debate em torno do desabafo nervoso de Huck pôs novas pulgas na minha orelha. Ao que parece, desde as priscas eras, o problema do mundo é mesmo um só -uma luta de classes cruel e sem fim.

José De Ribamar Coelho Santos, 41, o Zeca Baleiro, é cantor e compositor maranhense. Tem sete discos lançados, entre eles, ' Pet Shop Mundo Cão

domingo, 4 de novembro de 2007

Entrando na Onda do Tropa de Elite - Piada

Um dia quiseram ver quem era o melhor: McGyver, Jack Bauer ou Cap. Nascimento.

Chegaram pro McGyver e falaram: A gente soltou um coelho nessa floresta.

Encontre mais rápido que os outros e você será considerado o melhor!

McGyver pegou uma moeda de 5 centavos no chão, um graveto e uma pedra e entrou na floresta. Demorou 2 dias pra construir um detector de coelhos em floresta e voltou no 3o dia com o coelho.

Daí chegaram pro Jack Bauer e falaram a mesma coisa. Ele entrou correndo na floresta e 24 horas depois apareceu com o coelho. Pediu desculpas porque teve q desarmar 5 bombas nucleares, recuperar 15 armas químicas, escapar de um navio cargueiro que ia pra China e matar 100 terroristas pra chegar até o coelho.

Daí pediram para o Cap. Nascimento buscar o coelho. Se ele demorasse menos de 24 horas, seria o melhor. No que ele respondeu: Tá de sacanagem comigo 05? Ce ta de sacanagem comigo? Você acha que eu tenho um dia inteiro pra perder com essa porra de brincadeira 05? Tu eh mo-le-que! MO-LE-QUE 05! Virou-se calmamente para a floresta e gritou: Pede pra sair! Pede pra sair cambada! Em menos de 5 segundos já tinha saído da floresta: 300 coelhos, 20 jaguatiricas, 50 jacarés, 1000 paca-tatu-cotia- nao, o Shrek e o monstrofumaça do Lost.

Dai ele gritou:

- 02, tem gente com medinho de sair da floresta, 02!

- 07, traz a 12!

Nisso o Bin laden saiu da floresta correndo!

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Cordel do Fogo Encantado - Procissão ou Jesus no Xadrez

No tempo em que as estradas eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas cruzavam a região
Entre volante e cangaço quando a lei era do braço
Do jagunço pau mandando do coronel invasor
Dava-se no interior esse caso inusitado

Quando o Palmera das Antas pertencia
Ao capitão Justino Bento da Cruz nunca faltou diversão
Vaquejada, canturia, procissão e romaria
Sexta-feira da Paixão

Na quinta-feira maior Dona Maria das Dores
No salão paroquial reunia os moradores
Depois de uma preleção ao lado do capitão
Escalava a seleção de atriz e atores

Todo ano era um Jesus, um Caifaz e um Pilatos
Só nao mudavam a cruz, o verdugo e os mal-tratos
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor
Caifaz foi Cipriano, Pilatos foi Nicanor

Duas cordas paralelas separava a multidão
Pra que pudessem entre elas caminhar a procissão
Quincas conduzindo a cruz foi e num foi, advertia,
Um cinturião pervesso que com força lhe batia
Era pra bater maneiro, Bastião não entendia
Devido um grande pifão que tomou naquele dia
Do vinho que o capelão guardava na sacristia

Cristo dizia: "ô rapaz, vê se bate devagar,
Já to todo encalombado assim não vou aguentar,
Tá com a gota pra doer, ou tu pára de bater ou a gente vai brigar
Jogo já essa cruz fora, tô ficando aperriado,
Vou morrer antes da hora de ficar crucificado"

O pior é que o malvado fingia que não ouvia
E além de bater com força ainda se divertia,
Espiava pra Jesus, fazia pouco e dizia:
"Que Cristo frouxo é você que chora na procissão?
Jesus pelo que se sabe num era mole assim não
Eu tô batendo com pena, tu vai ver o que é bom,
Na subida da ladeira da venda de Fenelon
O couro vai ser dobrado
Até chegar no mercado, a cuica muda o tom"

Naquele momento ouviu-se um grito na multidão
Era Quincas que com raiva sacudiu a cruz no chão
E partiu feito um maluco pra cima de Bastião
Se travaram num tabefe, pontapé e cabeçada
Madalena levou queda, Pilatos levou pancada
Deram um cacete em Caífaz que até hoje não faz nem sente gosto de nada

Desmancharam a procissão, o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado
Acertaram um cocorote na careca de Timotéo que inté hoje é aluado
IAté mesmo São José que não é de confusão,
Na ânsia de defender o seu filho de criação
Aproveitou a garapa pra dar um monte de tapa na cara do bom ladrão

A briga só terminou quando o doutor delegado
Interviu e separou cada santo pro seu lado
Desde que o mundo se fez, foi essa a primeira vez
Que Jesus foi pro xadrez mas não foi crucificado

Baixe a declamação ao vivo desta poesia aqui

terça-feira, 30 de outubro de 2007

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Primeira Pessoa

Acabei de voltar do banheiro. É engraçado, porque eu já estou cansado de saber que uma das minhas características mais estranhas é que eu sou condicionado a pensar sobre as coisas no banheiro. Principalmente durante o banho. Parece que sentir a água esquentando minha pele abre minha percepção para novas idéias. Acontece que pensar nem sempre é o mesmo que lembrar. E acontece também que esqueço sempre o que pensei como se a toalha enxugasse a memória e não deixasse nem as lembranças do chuveiro.

Mas agora a pouco, antes de voltar do banheiro, lembrei. E decidi vir correndinho para cá para não mais esquecer. E tenho que escrever rápido para que as lembranças não escapem. E já estou sentindo-as imergirem. Mas vamos lá, vou fazer um esforço.

Depois que me espantei no espelho, pensei em como começar um conto, uma crônica, um texto qualquer. Sou craque em começar textos. Poderia ser bem sucedido se houvesse mercado para “iniciadores de texto”, pois já li várias vezes que essa tal da primeira frase é sempre um tormento para alguns escritores. Para mim o tormento vem depois, quando tenho que conseguir convencer àqueles que me lêem de que eu realmente estou querendo dizer alguma coisa.

De modo que eu pensei em começar algo assim:

“Esses dias mesmo, acabei estacando no seguinte repente: achei engraçado a expressão ´primeira pessoa´ que li num fragmento de xerox duma aula dum cursinho que tem perto de casa. Pensei: ´por que nós temos que nos referir a nós mesmos como sendo primeira pessoa?´ E percebi que estava cometendo um paradoxo, uma contradição em si, porque o pronome “nós” não é primeira pessoa. E como não sou um ás em gramática, nem sei que diabo de pessoa somos “nós”. Primeira pessoa sou eu. Você, por exemplo, é uma flexibilização do pronome Tu, que também não é primeira pessoa; é segunda. Ele é terceira. E acaba por aí, mesmo que na mesa de bar tenha mais alguns amigos. Todos eles, menos você, serão terceiras pessoas. Assim, gramaticalmente, minhas relações ficam reduzidas a três pessoas sempre: eu, você e ele ou ela. Uma outra coisa engraçada é que destas três pessoas que existem, apenas uma concorda com o gênero: a terceira; nas outras duas não se grafia o feminino e o masculino. Eu sou eu, posso ser mulher ou homem. Tu ou você, mesma coisa. Agora, a terceira pessoa é ele ou ela. Isto no português porque no inglês parece que todo mundo é assexuado.

O que acho besteira – embora entenda que é preciso certa ordem nisso tudo – sou eu ser a primeira pessoa na hierarquia das pessoas. Por quê eu venho em primeiro lugar? Essa regra não respeita nem a ordem de chegada ao mundo, porque tão logo nasço já sou eu, isto é, primeira pessoa. Nem bem cheguei e sou o primeiro da fila e as outras vêm depois de mim. E eu ainda nem sei que língua vão me ensinar a falar.

As pessoas dão muito crédito aos primeiros lugares. Eu recuso ser o primeiro, me recuso a me tomar como referência, como ponto de partida. Prefiro me fundir em você. Para que sejamos todos nós, ou, se alguém de nós ouvir falar, para ele, todos eles.”

Olha só. Comecei um texto e acho que terminei. O desfecho foi feito às pressas. Tenho que aprender a ser mais conciso. Mas não é fácil.

Ah, o que eu lembro do banheiro é só a primeira frase. O resto eu deixei os dedos errarem por si próprios.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O Risco da Sinceridade

Criscalina

Se conselho fosse bom, ninguém dava: vendia.
Mas as pessoas insistem. Não desistem: persistem.

Vítima de um complexo de fidelidade, sou fiel até à banca de revista onde compro chocolates, mesmo quando tinha de agüentar as adulações do jornaleiro que sempre entregava o troco com dois Embarés e um “apareça, lindinha”.

Eu aparecia. A salvação do mal-estar causado pela bajulação era o chocolate, consumido a partir do primeiro pé fora da banca, e os Embarés, logo em seguida, pra tirar o gosto.

De tanto voltar, o jornaleiro sentiu-se respaldado ao ponto de me dar conselhos.
Sei lá: deve ter visto um quê de vulnerabilidade no meu sorriso amarelado pelos adules.

Aproveitando um dia de infantil indecisão entre um Prestígio e dois Batons, começou:
“Tão bonitinha! Não vá deixar de estudar não, viu?”

Imersa na dúvida se, na verdade, não deveria pedir um Chokito, respondi indiferente que já estava com os estudos concluídos.

Feliz, ele:
“Muito bem! Agora, minha filha, entre na faculdade: vá correr atrás de um grau.”

Começando a me encabular, respondi, entre uma linha e outra do pedido de um Sensação, que já tinha entrado na faculdade.

Espantado, mas não desistindo de sua missão, o jornaleiro continuou:
“Já? Pois vá até o fim! Tem tanta gente que desiste no meio do caminho. Não vá desistir não!”

Completamente embaraçada, mas incapaz de mentir pra quem tanto me queria ajudar, entreguei o dinheiro, e respondi, recebendo o chocolate, já ter me formado.

Encurralado, catou um novo conselho, e falou feito um pai, num tom autoritário, quase irritado:
“Pois não vá depender de homem não! Arrume um emprego! Trabalhe! Depois, pense duas vezes antes de casar! E, olhe lá, arranje um bom marido!”

Ouvi pegando o troco. Agradeci sem conferir. Sem guardá-lo, saí.
Quando me dei conta: já tinha comido o chocolate.
E pra tirar o gosto: sequer um Ice Kiss.

Histórias Daquelas, e daquelas outras também

Já tive experiências interessantes pela internet. A começar por quando eu entrava na internet para conversar no mirc e no icq. Gastava todo o limite de horas da nossa internet discada na procura de canais interessantes para conversar com pessoas interessantes madrugada a fora. É lógico que, como adolescente que era, não pude resistir à tentação de inventar fakes de mim mesmo para curtir com esperança dos outros. Dizia ser uma pessoa que eu não era, escrevia coisas de outras pessoas dizendo que eram minhas, botava em mim olhos, cabelos e narizes que não eram meus, mudava o destinatário de algumas cartas. Consegui até uma namorada agindo assim. Imagino qual foi a surpresa dela quando a gente teve mesmo que se encontrar. Mas confesso que talvez tenha me surpreendido igualmente quando, mesmo depois de me conhecer, ela aceitou ficar comigo mesmo assim. Até que, enfim, como agora acontece com meu técnico, ela me substituiu.

O que eu queria com este preâmbulo era dizer que a internet nos reserva surpresas deliciosas. Mas para isso a gente deve deixar de visitar só os mesmo endereços todos os dias. E aproveitar dos links. O medo de vírus nos condiciona a ser desconfiado. Eu não tenho medo não. Qualquer coisa dou um "cancelar". Então, me senti muito feliz em saber que as coisas que a gente precisa conhecer já existem, porque alguém já fez. Nós precisamos é complementar, como acontece quando em uma roda de amigos um conta uma piada e os outros vão espichando-a na vã tentativa de tornarem infinitas as momentâneas risadas.

Eu encontrei o que queria. Sem querer. É um blog. Quase tudo hoje tem num blog. Então, a coisa que - sem querer - queria encontrar foi um blog.

Imagine que você é um solitário. Um eterno perdedor. Que você até tem vontade, mas se vê dominado pela inércia de repouso. Falta força para se pôr em movimento. Os seus amigos começam a ficar preocupados com você. Um pouquinho depois, sua família também. Sua avó convence a todos que a solução a lhe achar uma namorada. Eles ficam te apurrinhando até que você fica puto, entra na internet, escolhe meu blog como página inicial, vai no menu à direita e escolhe o link Histórias Daquelas, e daquelas outras também. Posso te garantir que, no mínimo, você vai ver que há chance de se ver coisas boas nessa vida. Ah, para que os presunçosos não se sintam não merecedores da dica, vocês também podem aprender alguma coisa lá. Como eu.

Garanto. Naveguem pelo blog. Leiam os escritos e me digam se aquilo não enche o balão murcho da nossa esperança. Confesso que estou pagando pau pra moça. Mas fazer o que?

Atenciosamente,

Alifanfarrão

sábado, 20 de outubro de 2007

Faichecleres

"Que música é essa, meu filho? Onde você anda escutando essas coisas? Que coisa horrível! Já te falei para parar de andar com esse muleques. Eles são uns canalhas. Ah, e vou conversar de uma vez por todas com seu pai. Assim não dá. Vamos ter que cortar a intenet!"

Seria exatamente essa a reação da minha mãe se ela tivesse me ouvido cantando "Ela só quer me ter" há alguns anos atrás. Mas felizmente para mim e infelizmente para ela, os Faichecleres (banda ao lado) só lançou essa música em 2005. E, daí, eu já tinha uma graninha para pagar minha internet. E também ela não conhece mais todos meus amigos.

Saídos de uma animação pré-psicodélica dos anos 60, os Faichecleres se materializaram em banda de rock na cidade de Curitiba e enlouqueceram as menininhas da Cidade Cinza com suas costeletas e letras sacanas.


Minha mãe talvez tenha razão. Eles são mesmo uns canalhas. Mas no bom sentido é claro! A gente consegue perceber o sofrimento de uma amor não correspondido mas sem concessões, como, por exemplo, em "Isso não é tão mal assim". O amor tem dessas coisas.
Tudo bem. A gente tem, no entanto que combinar uma coisa. Eles não tem o mesmo charme que os Beatles em "Oh Darling". Mas quem disse que a vida é fácil? - já dizia o capitão Nascimento.

Abraço a todos!

Enjoy!


Indecente, Imoral e Sem Vergonha (2005)










Calçada Da Fama (2007)




Downloadeie este disco

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Pacotes, excluídos e emergentes

Considere-se a afirmação seguinte: “Os países atrasados anunciaram um pacote de ajuda aos miseráveis.” Considere-se agora esta outra: “Os países emergentes anunciaram um conjunto de medidas de ajuda aos excluídos.” Qual a diferença entre uma frase e outra? Nenhuma, quanto ao conteúdo. Mas como soa mais benigna a segunda, expurgada da crueza selvagem da primeira... A primeira, dita num salão, choca como palavrão. Soa como vitupério de rameira em rixa de bordel. A segunda deleita como solo de clarineta. Parece discurso de doutor em noite de entrega de título honoris causa. Por isso, governa-se com a segunda.


Estamos falando da arte de se valer dos eufemismos. Quando morre a mãe de alguém, é grosseiro anunciar-lhe: “Sua mãe morreu”. No mínimo, a pessoa dirá que a mãe “faleceu”. Também poderá dizer que “desapareceu”. Ou então, se ainda achar pouco, que “feneceu”, delicado verbo emprestado às flores, com o que a morte se apresentará cheirosa como lírio, colorida como cravo. O eufemismo, como a hipocrisia, é a homenagem que, na linguagem, o vício presta à virtude. Soa mais virtuoso confessar a existência de “relações impróprias” com alguém, conforme fórmula celebrizada pelo presidente dos Estados Unidos, do que dizer que se cometeu adultério.


Na segunda das frases acima estão reunidos três dos eufemismos mais correntes na vida pública. Dois deles são universais – “emergente” para país atrasado e “excluído” para miserável. O terceiro, “conjunto de medidas” em lugar de “pacote”, fala exclusivamente à sensibilidade brasileira e, mais ainda, do atual governo brasileiro. “Emergente” para país atrasado ou, para ser mais exato, remediado, é a última de uma longa linhagem de fórmulas classificatórias dos países segundo sua riqueza. Até a primeira metade do século, quando ainda não se carecia de eufemismos, nesta área – ou, caso se prefira, de linguagem politicamente correta – os países eram simplesmente ricos e pobres, quando não metrópoles e colônias. Com a adoção do conceito de “desenvolvimento”, depois da II Guerra, passaram a ser “desenvolvidos” e “subdesenvolvidos”. Mais adiante, para não achincalhar a todos, indistintamente, com a pecha infamante de “subdesenvolvido”, premiou-se os melhores com o gentil “em desenvolvimento”. Tais países não eram mais “sub”, não estavam mais tão por baixo. Nos últimos anos, substituiu-se o “em desenvolvimento” por “emergente”, palavra que igualmente se opõe ao “sub”. São países não mais submersos, mas que emergem. Já põem a cabeça para fora.


“Excluídos” para designar os miseráveis é o coroamento de uma linhagem mais longa ainda de palavras com as quais se tenta melhorar a condição das pessoas na rabeira da escala social. Já se recorreu a peças do vestuário, por exemplo. Na Revolução Francesa havia os “sans-culottes”, os desprovidos do tipo de calça – o “culotte” – de uso dos nobres. Na Argentina de Perón e Evita consagrou-se o “descamisado”. Também já se falou – e se fala ainda – em menos favorecidos, despossuídos, humildes... “Excluído”, dirá o leitor, tem um sentido diverso. É aquele que o sistema produtivo exclui. Alguém pode ser pobre, porque mal remunerado, mas incluído, porque tem emprego e função na produção. Se o pobre pode não ser excluído, no entanto, dificilmente alguém será miserável e incluído. O que leva a concluir que, na prática, o excluído quase sempre se confunde com o miserável.


Resta falar da sorte da palavra “pacote”. “Pacote” nasceu inocentemente, na administração da economia, talvez por imitação das agências de turismo, que quando vendem passagens e hospedagem, tudo junto, vendem um “pacote”, para designar não uma, mas várias iniciativas adotadas ao mesmo tempo. Nasceu nesse sentido e nele devia permanecer: o de uma pluralidade de medidas, em vez de uma única. Sabe-se que o governo, para enfrentar a presente crise, adotará uma pluralidade de medidas. Por que então o horror à palavra pacote, anatematizada repetidas vezes pelo presidente Fernando Henrique Cardoso, que, ainda num discurso na semana passada, garantiu que “não existe nada de pacotes”?


Ocorre, circunstância fatídica, que os pacotes foram introduzidos na política brasileira pelo regime militar e costumavam ser baixados sem aviso nem consulta. Essa característica acabou contaminando o conceito de pacote, e eis-nos então de volta à anódina expressão “conjunto de medidas”, com a qual se pretende conferir a tais medidas, por maldosas que sejam, um atestado de bom comportamento. O eufemismo, desde sempre, foi parte integrante tanto da arte de governar quanto da de administrar as relações entre as classes sociais. No Brasil do século passado não havia escravo. Havia o “elemento servil”. O que isso tudo quer dizer é que quando é difícil modificar a sociedade, ou o governo, modifica-se a linguagem. Se não conseguimos, governo e sociedade, ser mais justos ou mais democráticos, sejamos, pelo menos, mais finos.

(Roberto Pompeu de Toledo – Revista VEJA – 14.10.98)

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

O Revisor do "S Ponto" e seu Final Feliz

Arapuã
Começou em jornal na então avenida Irradiação (hoje, Tiradentes), junto ao Mercado Municipal de São Paulo, em 1950. Era um prédio com mais de quinze andares e, no 7º e 8º, funcionavam, respectivamente, o Deutsche Nachrichten e o Diário de Notícias. O Diário era dirigido pelo Galeão Coutinho, um homem que ele admirava por vários motivos. Um deles: era o autor do romance Simão, o Caolho. Outro: ostentava uma basta e ondulada cabeleira branca. Num dos pontuais desastres do desastroso DC- 3 da Real Aerovias, a alva cabeleira de Galeão ficou espetada como um escalpo na ponta de um galho de árvore. Também admirava Galeão como profissional implacável. Uma noite, terminara de ler uma matéria em português ainda mais pobre que esta que o privilegiado leitor deste mimoso magazine ora saboreia. Chamou o autor à sua mesa. O asno chegou, e Galeão Coutinho espichou-lhe as duas laudas datilografadas:
– Faça-me o favor: vá ao banheiro com esta sua matéria e volte dele sem ela.
Recomendado por Elias Miguel Raide, jornalista bom e contista ansioso, começou no Diário como quinto suplente de revisor. Só ganharia se faltassem cinco revisores. Geralmente, nenhum faltava.
Não sei como imaginar isso, mas o Elias ganhava ainda menos que ele – e os dois, com quase oitenta centavos sobrando nos bolsos, subiam para um sobrado da família Adams na Rua 25 de Março e lá, numa mesa nua e furada de cupim, devoravam o prato fundo, cheio de trigo preparado como arroz. Única refeição diária, mas, eles babavam diante do grão de trigo gordo, grande, cozido. Custavam sessenta centavos os dois pratos, dele e do Elias. Caros, porém cozinha internacional (síria) de primeira.
Chefe da revisão, Itamaraty Feitosa Martins queria ajudar, mas os titulares não ajudavam: nunca faltavam, e, naqueles dias, dois, cinco cruzeiros que ele pusesse nos bolsos eram como cocaína na veia – delirava com a dinheirama.
Elias dizia, agachado de rir, que pobre como nós só bóia quando vem a enchente, e acrescentava:
– Graças a Deus, sou católico, posso engolir a hóstia, ainda é grátis.
O suplente morava em pensão, na suíte de luxo com bolor exclusivo e janela abrindo para o beco. Havia, também, suítes de umidade executiva, com direito a tuberculose se o pensionista morasse por mais de seis meses. Além dessas acomodações especiais, as pensões ofereciam quartos comuns, com uma cama – e quatro paredes encostadas nela.
À noite, quatro num cubículo, dormia-se ao som do ronco tonitruante de um deles, e com o vento gaseificado da liberação sem pudor dos outros dois. Dante Alighieri, ali, era Cecília Meireles. Pelo grunhir, um chiqueiro – pelo odor, um esgoto. Mas o que eram os roncos e os gases, se comparados à comida servida todos os dias? Temia que fosse verdade o que dizia o Lívio Abramo: pobre só vai para frente quando o cassetete acerta na nuca.
O quinto suplente aparecia todas as noites e olhava a revisão. Olho comprido, de dar torcicolo em um ou dois titulares. Ansiava por uma epidemia, paralisando em suas residências, por uma semana que fosse, os titulares cus-de-ferro. Um sarampo medieval, uma catapora purulenta prostrando todos na cama – mas, sem matar. Não queria subir na vida matando titulares da revisão. Não veio a epidemia, mas veio o Feitosa Martins. Faltou ao serviço somente um titular, mas o Feitosa pediu aos outros quatro suplentes que o deixassem trabalhar.
Finalmente, estava no umbral para ingressar no jornalismo sério, o jornalismo de Wainer, dos Abramo, Frias, Barbosa Lima, Nelson Rodrigues, Ponte Preta, Sacchetta: ia fazer uma revisão. Quando o texto chegou, tomou-o nas mãos, trêmulo. Com o revisar da notícia, ele estaria trabalhando em jornal, já seria praticamente um jornalista. Terminada a revisão, alcançaria o panteão dos “jornalistas calejados”, como o Joel Silveira. Foi ao texto como vai o jovem noivo alucinado ao corpo da sua noiva virgem (naquela época), na noite de núpcias. Ansiava por se atracar com o hímen do primeiro erro, qualquer erro.
Pior que a morte, brochar sem corrigir. Precisava revisar, ansiava por usar o lápis em alguma linha do texto, marcar o erro, puxar para a margem e cifrar a correção feita por ele. “Feita por ele” – isso ressoava na sua alma inquieta. Mas e se aquela composição relativamente curta fosse toda correta, sem erro algum? Como salvar sua carreira de jornalista, com uma tragédia dessas logo no seu tiro de partida, revisar sem encontrar qualquer erro? Os titulares da revisão, no dia seguinte, diriam, com olhar superior:
– Suplentes! E querem trabalhar.
Queria o tumor do erro, extirpá-lo com a ponta cirúrgica do seu Johann Faber. Meia hora depois de iniciada a grande tarefa, Feitosa passou como quem não quer nada e espiou o trecho de texto. O futuro revisor colocou a mão como se fosse escrever algo, mas tentava esconder o tamanho da prova: dezoito míseras linhas sobre a nomeação de um funcionário da prefeitura, e todas elas sem nenhuma correção. Pensando bem, nem era notícia, mas, para o quinto suplente de revisor, era a manchete do dia:
MÉDICO NOMEADO PELA PREFEITURA DE SÃO PAULO
Leia mais detalhes no texto abaixo, revisado pelo renomado jornalista Raimundo Cavalcanti.
Nada mal, como começo de carreira. Feitosa deixou que o senso de amizade triunfasse sobre o dever da chefia – e seguiu adiante, para outra banca. Ele prosseguiu, febril, no trabalho de impiedoso cata-piolho. Parava em alguma palavra, pronunciava-a baixinho, uma, duas, cinco vezes: era o desespero por uma dissonância que o autorizasse a tacar o lápis e deixar a marca do seu vibrante jornalismo, uma arma do povo.
Onde estava aquele encontro de duas vogais sem o hífen? Cadê o verbo no tempo errado? Onde a palavra “prefeitura” grafada “perfeiturta”? Quando toparia com o encontro consonantal equivocado? Em que frase está o período intercalado que faz esquecer a conjugação verbal principal? Onde “a maioria... sentiram”? Cadê o erro, cadê? Achar um erro parecia mais difícil que levantar impressões digitais na água de uma piscina.
– Meu prato de trigo cozido por um erro − desesperava-se o suplente.
Sonhava, como sempre: muitos trotskistas e vendedores de maçã do amor lhe diziam que era preciso ter os pés no chão, como eles.
– Quem tem os pés no chão, é porque está sentado no vaso − retrucava, fulo.
Como restassem cinco ou seis linhas, o destino parecia traçado: caminhava para uma calamidade, uma tragédia para o resto da sua vida. Nem mesmo a ababelada suposição de que, não encontrando erro, poderia se inspirar e escrever algo parecido como The Nigger of the Narcissus ou outro desesperado E Agora, José? (E Agora, Raimundo?), mas, lá no fundo, sabia que se escrevesse algo baseado em sua tragédia seria um pequeno conto recusado por todos os editores: Um Dia de Cão.
Jamais seria jornalista. Como ser jornalista, se não principiasse a sê-lo naquele fluxo de língua portuguesa sem falhas, perfeito na gramática, impecável na ortografia, demoníaco?
Maldição.
Agora, já lia xingando o texto, desacreditando na profissão, tão cedo e já tão abatido pelo revés do jornalismo sério. Era a última linha do texto da notícia, e ele a releu pela sétima vez:
A cidade de S. Paulo conta, portanto, desde hoje, com o trabalho competente do Dr. Severo Almeida Gomes.
Cortava o coração: nem o nome do infame funcionário o redator escrevera errado. É sempre assim, filosofou, os certinhos ferrando os bons e errados, como ele. Viu o seu fim. Esmagado, levantou o papel da prova para passar adiante com a sua assinatura de revisor-substituto da hora, quando uma palavra saiu do texto, pairou, brilhando, acima dele, como um halo santo: um erro! Uma onda quente de felicidade invadiu o quinto suplente. Retornou a prova à banca, seguro do que fazia, um jornalista no melhor do seu desempenho profissional. Consciente, grave, maduro.
Tomou o lápis, olhou sua ponta, foi ao apontador, montado no fim da mesa, deixou rodar e cair finas volutas de madeira ondulada no chão. A ponta parecia luzir, fina e severa. Apoiou a mão para firmar o papel impresso, fez um risco pequeno, forte e vertical no S da palavra S. Paulo e, na margem, à mesma altura da linha daquela abençoada palavra, corrigiu, compenetrado e capaz: São.
Nada de “S ponto”. O certo, no jornal, era o São por extenso, tinha certeza: nada de “S. Paulo”, revisado pelo nomeado jornalista para “São Paulo”. Vitória! Começava de maneira magistral sua carreira no jornalismo. No dia seguinte, apanhou o jornal, um exemplar da redação, folheou e procurou, impressa, a notícia que ele revisara. Temia ejacular, quando lesse a nota revista por ele. Melhor do que Fla 6 x Flu 1.
Ofegante, coração aos pulos como um botafoguense dopado, desceu para o pé da página e lá estava a notícia. Os olhos pularam para o trecho final, no qual ele topara com a glória do S ponto. Olhos molhados, percorreu a linha final para ler o São Paulo da sua autoria. Lá estava:
A cidade de S. Paulo conta, portanto, a partir de hoje com o trabalho competente do Dr. Severo Almeida Gomes. S ponto.
Nunca mais ele apareceu na redação. Dizem que foi trabalhar num circo, limpando os aposentos do elefante e, como jornalista, escrevendo, com giz branco e molhado, numa lousa negra fora da lona, informando preço da entrada, meia-entrada e senhoras acompanhadas, eufemismo para amasiadas.
No pé da lousa, uma discreta rubrica: R.C.
Assinava aquela notícia em giz, o máximo que conseguira na profissão jornalística. E era feliz: afinal, nem todos nascem para Samuel Wainer!
Fonte: Revista Piauí

domingo, 7 de outubro de 2007

Passamos das 1000 visitas

Bom dia, pessoal!

Esta postagem é dedicada em agradecimento àqueles que contribuíram para que o blog chegasse ou seu primeiro milhar. É de uma felicidade sem tamanho, que quase não cabe dentro do meu peito. Ainda bem que eu tenho plenos pulmões.

Enfim, obrigado a todos. Principalmente à minha irmã, que colocou o endereço do bolg como página inicial do seu IE e contribui com uma voltinha cada vez que ela abre uma janela nova.

Vão arrumar o que fazer.

Obrigado!

sábado, 6 de outubro de 2007

Enigma

No arquivo abaixo existe uma arquivo .xls que pode ser aberto em axel ou no open office. Nele estão contidos alguns nomes das pessoas que conseguiram resolver o enigma que estarei colocando abaixo. O resultado do enigma é o password para abrir o arquivo e colocar seu nomezinho lá.

Boa sorte!!!

Tem um ônibus com 7 garotas dentro
Cada garota tem 7 mochilas
Dentro de cada mochila, tem 7 gatos grandes
Cada gato grande tem 7 gatos pequenos
Todos os gatos tem 4 pernas cada

Quantas pernas tem dentro do onibus?

Baixe o arquivo

Silas Simplesmente!!!

Outro personagem do Marco Luque! O mesmo humorista do Jackson Five, o motoboy!!!

Autoramas - Teletransporte


Autoramas - Nada pode parar os Autoramas (2003)



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Autoramas - Vida Real (2001)



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Autoramas - Stress, depressão & Síndrome de Pânico (2000)



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quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Governador do DF demite o Gerúndio

Quem não conhece o famoso gerúndio? Ele está presente em muitas frases de políticos e apresentadores idiotas da TV. Pois então, o governador do Distrito Federal, demitiu-o de suas funções gramaticais mal elaboradas. E sem justa causa. Segue o decreto:

"Decreto nº 28.314, de 28 de setembro de 2007.

Demite o gerúndio do Distrito Federal, e dá outras providências.

O governador do Distrito Federal, no uso das atribuições que lhe confere o artigo 100, incisos VII e XXVI, da Lei Orgânica do Distrito Federal, DECRETA:

Art. 1° - Fica demitido o Gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal.

Art. 2° - Fica proibido a partir desta data o uso do gerúndio para desculpa de INEFICIÊNCIA.

Art. 3° - Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Art. 4º - Revogam-se as disposições em contrário.

Brasília, 28 de setembro de 2007.

119º da República e 48º de Brasília

JOSÉ ROBERTO ARRUDA"

Retirado da Folha de S. Paulo

Moreira da Silva - O Último dos Malandros (1958)

Segue abaixo o segundo disco do Kid Morangueira. Olha só o que o tempo fez com a criatura. Definitivamente, o tempo arrasa tudo.

O Último dos Malandros




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terça-feira, 2 de outubro de 2007

Moreira da Silva - Morengueira (1964)

Continuarei com as postagens de samba. Este vai ser o primeiro de quatro do Moreira da Silva, um dos principais expoentes do Samba de breque.

Morengueira (1964)





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domingo, 30 de setembro de 2007

Ecos Falsos

Bandas novas para mim começam pelo nome. É compreensível. Imagine-se na minha pele. Estou aqui na internet, sem nada pra fazer, cansado de ver as mesmas fotos nos diferentes blogs pornôs, decido procurar coisas novas pra ouvir. E visito os mesmos blogs de sempre, que - diferentes do meu - são bem atualizados. Vejo aquela infinidade de bandas conhecidas e outras novas. Como não conheço o som das novas, escolho aquelas que vou conhecer pelo nome da banda. É claro. Frequentemente escolho os nomes que me causam um sorriso de canto de boca. Causou isso, entra na fila de downloads.
Foi assim com a "Ecos Falsos". Achei interessante, pelo seguinte: tudo bem que estamos nessa atual onda ambientalista, mas daí pensar que o nome da banda fosse uma crítica velada à alguns desses pseudoespecialistas que acreditam que dá pra reverter o aquecimento com medidas apenas paliativas era demais. "Ecos" não era diminutivo de ecologistas.
Descartada a imediata primeira hipótese, fiz o que qualquer mais espertinho faria. Apelei pro google. E olha só o que encontrei:

quatro paulistas que se acham a melhor boyband do mundo. Ecos Falsos = sinal de atividade alienígena (diz o Google), para quem acredita em alienígenas, claro. “Em vez de estar escrevendo isso, eu preferia estar produzindo um disco dos Ecos Falsos. Por quê? Porque quando eu fui ouví-los todo orgulhoso com a farinha da minha experiência, eles vieram com um bolo inesperado, e eu comi até mais do que queria. Esses profanos, esses agnósticos, esses heréticos são bons pra diabo!” (Tom Zé)

Depois disso, achei no site dos caras algumas opiniões. Seguem:

"A melhor coisa que eu ouvi de rock nos últimos tempos."
Tom Zé

"Ouvi outro dia limpando a casa, preciso ouvir de novo!"
Wander Wildner

"Ecos Falsos é uma banda que revela todo potencial da época atual."
Nando Reis

"Não conheço."
Lúcio Ribeiro, Folha de S. Paulo

"Bão dimais!"
Beto Cupertino, Violins

"De onde eu estava, não deu pra entender nada."
Clayton, Detetives

"Gostei muito daquela do cocô"
Gabriel, Autoramas

"Massa!"
Fabrício Nobre, MQN/Monstro Discos

"Rock honesto."
Gustavo Mini, Walverdes

"O som é bacana, mas vocês nunca vão fazer sucesso."
Clemente, dos Inocentes

"Sinto que vocês podem até ter um som legal cara, mas nunca irão fazer sucesso."
Carlito Frad87

"Tua banda tá mandando muito bem nos arranjos, tem três lá que são geniais!"
Bacalhau, Autoramas

"Rock de guitarras nervosas e letras protestatórias cantadas em bom português."
Humberto Finatti, Revista Dynamite

"Ah, legalzinho."
Phillippe Seabra, da Plebe Rude

"Bonita essa guitarra!"
Rodrigo Amarante, Los Hermanos

"Supercharged joyfully chaotic ska-surfpunk lofi classic!"
Steve Ison, Planet of Sound
sobre o single "eu nunca ganho"

"As músicas são boas, mas o vocal tá uma merda!"
Sérgio Dias, ex-Mutantes

"Banda com criatividade. Coisa rara hoje em dia."
Alexandre Cavalo, Velhas Virgens

Baixem logo o disco:

Descartável Vida Longa


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domingo, 23 de setembro de 2007

Sambasonics

Nem só de rock viverá o homem, dizia Bezerra da Silva, embora esta afirmação nunca seja encontrada em nenhuma entrevista, em nenhuma conversa de bar. Mas acredito que ela poderia ser a ele atribuída sem risco de ser cometida nenhuma injustiça.


Agora, o que faz doi negões, um playboy, um rastafari e uma japa, quando se juntam pra comer um churrasco, beber cerveja e ouvir Chico Buarque? Fazem samba. Pra quem gosta, vale a pena conferir. Tem até uma versão rebolada "praquela" musica das velhas virgens "eu bebo sim".


Pra quem não gosta, deixe quieto e comece a ler este blog da postagem abaixo.


Abraços!
Sambasonics (2003)






Downloadeie este disco (corrigido)


Sapatos Bicolores

Para quem gosta de Graforréia, esta dica é interessante. Mais uma vez, três caras que fazem um som legal.

Vale a pena curtir.


Não sei se vocês estão percebendo, mas estou meio sem palavras ultimamente. Vou confessar que estou seguindo indicações do meu analista. Ele concluiu que esta história de blog está matando o musgo que era minha vida social. Além disso, ele percebeu minha frustração em tentar me comunicar com pessoas que não faziam a parte delas de serem interlocutoras. Então, me pediu para que eu tentasse, além do prozac, alguns momentos de mudez internética. Estou me esforçando, como vocês podem comprovar.
Grande abraço a todos.
Recomendações minhas aos seus!


Clube Quente dos Sapatos Bicolores



sábado, 22 de setembro de 2007

Terça Insana - Jackson Five, o motoboy

A cidde é uma ferida incrustrada na crosta terrestre"

Terça Insana - Eu Fico Puto!

"Prefiro ter um filho viado, que um filho velha"

domingo, 16 de setembro de 2007

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Entrevista do Raul para O Pasquim (1973)

Desta vez, vai uma entrevista do próprio. Ô, vamos combinar, o cara gostava de zoar os entrevistadores, né?
Vai lá um desafio: em quais momentos estava ele sendo sinceramente sincero?
Segue a prosa...

O PASQUIM - Você surgiu publicamente com Ouro de Tolo. Mas nós queremos que você conte o seu início, desde o princípio mesmo.
RAUL - Vamos ver. Vamos voltar a 1959. Eu tinha um conjunto de rock, lá em Salvador. Eu morava perto de uns garotos do consulado, eles me apresentaram uns discos de rock...

O PASQUIM - Qual consulado?
RAUL - O americano. Estava aquela coisa acontecendo nos Estados Unidos e nós tomamos conhecimento. Nós fizemos um conjunto de rock em Salvador, e a gente viajava pra todo interior, fazendo aquela coisa, assumindo mesmo, vivendo aquela coisa da época.

O PASQUIM - Como é que chamava o conjunto?
RAUL - Os Panteras. Porque todo conjunto daquela época tinha nome de bicho.

O PASQUIM - Era um conjunto de quantos?
RAUL - Eram quatro pessoas. Guitarra, baixo e Bateria.

O PASQUIM - Krig-Ha, onde fica?
RAUL - Krig-Ha seria um rótulo. É uma sociedade que existe hoje no mundo inteiro, com vários nomes. Aqui no Brasil nós batizamos com o nome de Krig-Ha, que é o grito de guerra do Tarzan. Você deve ter lido Tarzan, né? Khig-Ha significa "cuidado"!

O PASQUIM - Bandolo é inimigo, né?
RAUL - É. Aí vem o inimigo. Tinha o dicionário de Tarzan na primeira página. Você lia e tinha a tradução. Eu sabia aquilo decorado. Mas essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro acontecimento que essa sociedade promoveu foi o disco, o LP Krig-Ha, Bandolo!

O PASQUIM - E aquele símbolo da sociedade? A chave?
RAUL - Aquele símbolo é o símbolo de Amon Ra, acrescido de uma chave. Esse símbolo tem uma história interessante. Quando o Paulo Coelho, meu parceiro, tava em Amsterdã, em 67, ele estava usando um símbolo hippie no pescoço. E veio um sujeito estranhíssimo e arrancou o símbolo do peito dele e colocou esse símbolo, sem a chave e disse: "Não é nada disso. Agora é isso." Ele ficou assustadíssimo com aquele símbolo no pescoço, mas começou a usar. E nós fomos uma vez, há pouco tempo, escrever uma peça, que nós vamos lançar para o ano. Fomos lá em Mato Grosso, numa tribo de índio. E numa barraquinha de índio tava vendendo esse mesmo símbolo. Uma coisa incrível e batizamos como o símbolo da sociedade.

O PASQUIM - Fale um pouco sobre a sociedade.
RAUL - Como eu estava dizendo, essa sociedade promove acontecimentos. O primeiro foi o LP. O segundo foi uma procissão que foi muito bem sucedida. Foi muito bonito. A gente levou uma bandeira na rua. Uma explosão. Porque vocês sabem que tem havido uma série de implosões. Nós saímos à rua, cantando, foi muito bonito. A terceira foi esse show de teatro, esse show que nós estamos fazendo agora. E a quarta vai ser o piquenique do papo. Nós vamos convidar todos os artistas, de todos os campos e vamos fazer um piquenique bem suburbano, no jardim botânico. Todo mundo. Pra conversar. Um rapaz já se prontificou a fazer um discurso sobre "A Maldade das Formigas."

O PASQUIM - Qual é o fim específico da sociedade? A que ela se propõe? Ela segue uma "filosofia"?
RAUL - Essa sociedade não surgiu imposta por nenhuma verdade, nenhum líder. Não houve liderança no mundo inteiro, como se fosse tomada de consciência de uma nova tática, de novos meios.

O PASQUIM - Da própria sociedade?
RAUL - É, do próprio mecanismo da coisa. Nós estamos correspondendo com pessoas que fazem parte dessa sociedade, inclusive Jonh Lenon e Yoko Ono. Eles fazem parte da mesma sociedade, só que com outro nome. Nós mantemos uma correspondência constante com eles.

O PASQUIM - Voltando à sua biografia. Você poderia explicar sua formação literária, como você chegou a esse texto?
RAUL - Isso aí é uma coisa interessante. Antes de eu vir pro Rio eu pensava em ser escritor. Eu sempre escrevi. Antes de cantar, eu pensei em escrever. Eu tenho alguma coisa escrita guardada no baú , que penso em publicar algum dia. Eu sou muito dado à filosofia, eu estudei muito filosofia, principalmente a metafísica, ontologia, essa coisa toda. Sempre gostei muito, me interessei. Minha infância foi formada por, vamos dizer, um pessimismo incrível, de Augusto dos Anjos, de Kafka, Schopenhauer. Depois eu fui canalizando e divergindo, captando as outras coisas, abrindo mais e aceitando as outras coisas. Estudei literatura, comecei a ver a coisa sem verdades absolutas. Sempre aberto, abrindo portas para as verdades individuais. Assim, sabe? E escrevia muita poesia. Vim pra cá publicar.

O PASQUIM - Você teve a intuição de que a música seria um veículo mais imediato de comunicação?
RAUL - Essa tomada de consciência que eu tive foi há pouco tempo, uns dois anos atrás. Porque eu usava a música por música. E por outro lado eu queria atingir uma coisa pela literatura. Mas eu vi que a literatura é uma coisa dificílima de fazer aqui, de comunicar tão rapidamente como a música. Eu tive uma escola muito importante, que foi a CBS como produtor de discos de Jerry Adriani, de Wanderléa, daquela coisa toda de iê-iê-iê. Eu produzia discos para o Trio Ternura , aquele pessoal. Foi uma vivência fantástica para mim. Aprendi muito a comunicar.

O PASQUIM - E o Paulo Coelho, teu parceiro?
RAUL - Eu conheci o Paulo na Barra da Tijuca, num dia que tava lá. Às cinco horas da tarde eu tava lá meditando. Paulo também tava meditando, mas eu não o conhecia. Foi o dia que nós vimos um disco voador.

O PASQUIM - Você pode falar nisso, já que tá na moda, todo mundo vendo disco voador de novo. Como é que foi isso?
RAUL - Foi depois do FIC, em que eu cantei o Let Me Sing.

O PASQUIM - Ano Passado.
RAUL - Cinco horas da tarde. Então eu vi. Enorme, rapaz, um negócio muito bonito. Inclusive os jornais levaram a coisa pro lado sensacionalista: O cara viu o disco voador. "O profeta do apocalipse." Eu dei muita risada com isso. Mas não foi nada, foi um disco muito bonito.

O PASQUIM - Dá pra descrever o disco?
RAUL - Dá sim. Foi... era meio assim... prateado. Mas não dava pra ver nitidamente o prateado porque tinha uma aura alaranjada, bem forte, em volta. Mas enorme, entre onde eu estava e o horizonte. Ele tava lá parado, enorme. O Paulo veio correndo, eu não conhecia ele, mas ele disse: "Cê tá vendo o que eu tô vendo?" A gente aí sentou e o disco sumiu num ziguezague incrível.

O PASQUIM - Durou quanto tempo mais ou menos?
RAUL - Uns dez minutos.

O PASQUIM - Qual foi o efeito disso em vocês?
RAUL - Ouro de Tolo, que pintou aí. Essa música.

O PASQUIM - Usaram muito esse disco pra dizer que você era místico, um negócio assim. Esse disco voador foi pra parada de sucesso.
RAUL - Falta do que dizer. Não se tem mais o que falar hoje. Tem que se falar mesmo neste lado de disco voador, profeta do apocalipse. O homem que viu o disco voador dá IBOPE, chamam ele pro Sílvio Santos.

O PASQUIM - Independente dessa sociedade, é claro, e das coisas em que você acredita, você não acha que o tipo de atitude que você toma publicamente influi nisso? O fato de colocar nas suas entrevistas que você viu um disco voador, o fato de você ter feito sua procissão e a entrevista que você deu à Manchete dentro do avião, no aterro...
RAUL - Aquela foi gozadíssima. Ela ligou lá pra casa e disse que queria fazer uma matéria comigo, eu disse: "Pois não, mas eu tenho que fazer uma viagem de avião. Eu só dou entrevista dentro do avião." Era aquele avião que tem lá no aterro. Aí nós fomos pro avião 4 horas da tarde. Ela já tava me esperando lá. E Paulo Coelho com a mala. Todos nós entramos no avião "Cê tá gostando da viagem?" Pusemos o cinto de segurança. E ela com um medo de fazer a entrevista, um medo horrível de mim. Aí surgiu a aeromoça, que era minha mulher, servindo sanduíche, cafezinho. Ela ficou apavoradíssima. Mas foi uma brincadeira que nós fizemos, para usar a imaginação.

O PASQUIM - Raul, os sinais, suas letras, está tudo ligado com um magicismo seu. Você brinca muito com isso não? Magicismo, ironia mágica, seja lá qual for. Pra botar isso bem curto: Qualé?
RAUL - Vamos citar o Apocalipse bíblico. Foi escrito numa época incrível, você tinha que falar uma linguagem simbólica, uma linguagem mágica. Mas o Apocalipse é uma coisa que se adapta a qualquer época.

O PASQUIM - Principalmente a atual. É, algumas épocas mais do que as outras, alguns lugares mais do que os outros.
RAUL - É quase a mesma linguagem que nós estamos usando pra tentar dizer, tentar chegar a um objetivo. Não é um objetivo de uma verdade absoluta, porque ninguém aqui quer chegar a uma verdade absoluta e impô-la. Apenas se quer abrir as portas. Para as verdades individuais.

O PASQUIM - Então você quer abrir uma porta na cabeça de quem tá te ouvindo. Não há uma hora em que se fecha de repente? O perigo de fazer essas coisas, o perigo do magicismo, da maneira de dizer as coisas...
RAUL - É uma escada.

O PASQUIM - Mas ao mesmo tempo há o perigo de você se fechar dentro do magicismo! Há esse perigo, você vê esse perigo?
RAUL - Não. É uma escada. Um estágio. Nós estamos no primeiro estágio. Estamos transando com a fase "Terra" da coisa. Esse primeiro estágio tem que ser assim. O segundo estágio é outra coisa, já é mais aberto. Não se pode começar uma coisa assim, você tem que manipular. Por exemplo, Raul Seixas. Eu tô segurando Raul Seixas ali embaixo, como uma marionete. Eu tô aqui em cima. Eu sei até que ponto ele deve subir um pouquinho mais, cada vez mais. Mas nunca ele pode chegar aonde eu estou, não vou comunicar mais.

O PASQUIM - Esse Raul Seixas que você manipula, que está lá embaixo, é em função de quem te escuta e te vê?
RAUL - Esse Raul Seixas que está no teatro Tereza Raquel, cantando esse tipo de música, dando um certo toque mágico na coisa, é necessário. Usando muito a imaginação, a intuição. Longe, fugindo do logicismo. Esse logicismo radical, kantiano, de Pascal. Eu vejo isso como um estágio.

O PASQUIM - Você faz isso mais para se entender ou pra que os outros te entendam?
RAUL - Pra que os outros me entendam. Pra que eu penetre em todas as estruturas, em todas as classes, em todas as faixas. Todo mundo tá cantando A Mosca na Sopa.

O PASQUIM - Eu acho que o magicismo seria uma entrelinha. Você não tem medo então de perder a linha? Você vai tanto na entrelinha que acaba perdendo a linha.
RAUL - Não, que é isso? Sabe por que? Eu tenho medo de hermetismo. Eu acho que não é mais fase de hermetismo.

O PASQUIM - Mas o magicismo pode cair.
RAUL - Mas é um magicismo estudado. É dosado, nêgo.

O PASQUIM - Se você não estiver muito sob controle, pode cair nisso. Isso exige um tremendo autocontrole, conhecimento de si próprio, senão você embarca no próprio som do que você está dizendo. Tem que saber o que você está fazendo.
RAUL - Eu tô fazendo.

O PASQUIM - É isso que preocupa, se você está consciente. Ô Raul, como é que você vê os seus contemporâneos no Brasil? Os que fazem outras coisas, que escrevem romances, fazem poesias, trabalham em jornal, televisão etc.
RAUL - Como eu vejo a realidade? Isso aí é fogo, rapaz.

O PASQUIM - Use o magicismo.
RAUL - Peraí. Eu vou falar uma coisa aqui. Eu vou falar sobre os cabeludos. Eu li outro dia um negócio de Pasolini na Veja. Vocês leram? Achei fantástico. Você já não sabe mais quem é quem. Tá aquela coisa de cabeludo, tá todo mundo estereotipado. Por isso é que eu faço questão de dizer que eu não sou da turma pop, que eu não tô comendo alpiste pop. Eu sei lá, eu acho que tá todo mundo de cabeça baixa, tá todo mundo schopenhauer, todo mundo num pessimismo incrível. Essa geração audiovisual, e digo isso muito maldosamente, eu chamo eles de "audiovisuaizinhos". Minha mulher fala comigo que eu não devo fazer isso com eles, porque a garotada tá sabendo. Tá todo mundo de cabeça baixa, quieto, conformado. Eu sou um cara muito otimista nesse ponto. Sei lá, eu não sei se é a minha correspondência com o planeta, vejo a coisa em termos globais. E tá realmente acontecendo uma coisa fantástica, que é essa certeza e conscientização de que você deve ser um rato, transar de rato pra entrar no buraco de rato, vestir gravata e paletó para ser amigo do rato. E depois as coisas acontecem. Não ficar de fora fazendo bobagem, de calça Levis com tachinha. Esse tipo de protesto eu acho a coisa mais imbecil do mundo, já não se usa mais. Eles tão pensando como Jonh Lenon disse, "they think they're so classless and free". Mas não são coisa nenhuma, rapaz, tá todo mundo dentro de uma engrenagem sem controle.

O PASQUIM - Vamos falar do tempo em que você era produtor de discos na CBS. A sua posição profissional era praticamente ditatorial. Como é que era a tua transa pessoal com essa gente?
RAUL - Eu fazia aquela coisa porque sabia que era uma coisa inconseqüente. Eu fazendo ou não, outra pessoa ia fazer. Eu estava fazendo aquele trabalho, o diretor da CBS queria, e enquanto isso ia aprendendo a usar aquele mecanismo.

O PASQUIM - Você estava de rato?
RAUL - Exatamente. Eu estava de rato, vestido de rato. Foi quando surgiu a idéia de eu contratar Sérgio Sampaio e Edith Cooper, que é uma boneca lá da Bahia, um cara fantástico, muito amigo meu. Nós fizemos um disco chamado Sociedade da Grã Ordem Kavernista Apresenta: Sessão das Dez. Mas o disco foi misteriosamente tirado do mercado porque não era a linha da CBS. Esse disco foi quando eu botei as manguinhas de fora, foi quando eu comecei a fazer o trabalho. Era um disco que mostrava o panorama atual, o que tava acontecendo, o caos todo daquela época. O caosinho bonitinho que tava acontecendo naquela época.

O PASQUIM - Aí você foi expulso da CBS.
RAUL - Fui expulso em função desse LP. E também porque fui no festival Internacional da Canção, cantar Let Me Sing.

O PASQUIM - Eles não queriam isso?
RAUL - Não. Eles disseram: "Ou você é produtor ou você é cantor." Eu tinha que optar.

O PASQUIM - Raul o que te levou ao hermetismo? O que você andou fazendo de coisas herméticas, e o que te deu a noção de equilíbrio?
RAUL - Foi o primeiro LP que gravei na Odeon. Foi um LP louco, rapaz. Um LP extremamente filosófico, metafísico, ontológico, que falavam em sete xícaras, ou seja, as sete perguntas aristotélicas. Ou seja, as fontes do conhecimento.

O PASQUIM - Como é que chamava o disco ?
RAUL - Raulzito e seus Panteras.

O PASQUIM - Raul, você tem filhos?
RAUL - Tenho uma filha.

O PASQUIM - Em 59, você fazia rock na Bahia. Você conheceu Caetano e Gil na Bahia?
RAUL - Conheci o Gil.

O PASQUIM - Isso foi antes do tempo de Gessy-Lever?
RAUL - Do tempo que eu fazia jingle também. Só que eu fazia jingle rock e ele fazia jingle bossa-nova. A gente se conhecia, 59, 60 por aí.

O PASQUIM - Depois desse contato, como é que foi ficando? Distante?
RAUL - Era uma coisa lá e outra aqui. Nós tínhamos um lugar, o cinema Roma, onde a gente promovia shows de rock.

O PASQUIM - Bossa-nova não?
RAUL - Bossa-nova era no teatro Vila Velha. Era uma coisa bem separada mesmo. Existia um conjunto lá, a Orquestra de Carlito, com Caetano e Gil. E existiam os Panteras. Duas coisas completamente diversas. Mas no fundo eu acho que estava todo mundo querendo chegar a mesma coisa, era só problema de linguagem.

O PASQUIM - Raul, o pessoal que viu o show em São Paulo diz que, além da crítica leve que você fez ao Roberto Carlos, tinha uma crítica ao Caetano também.
RAUL - Tinha não.

O PASQUIM - E a crítica ao Roberto?
RAUL - É uma brincadeira. Porque quando Ouro de Tolo saiu, tava saindo uma música do Roberto em que ele agradece ao Senhor pelas coisas recebidas. Ele disse que agradece, eu digo que eu devia agradecer. Foi isso que os caras pescaram.

O PASQUIM - Você está a fim de ocupar a vaga de guru que o Caetano Veloso deixou?
RAUL - Eu não sei se é isso, não. Acho que Caetano tá sabendo o que tá fazendo. Ele sabe exatamente.

O PASQUIM - Caetano era guru ou não era?
RAUL - Não... Eu acho que ele não assumiu esse negócio de guru. Eu acho que viram ele como uma tábua de salvação, as pessoas tavam precisando dele, tava na hora de um apoio. Então escolheram o Caetano.

O PASQUIM - Ele ainda é o líder?
RAUL - O que você acha?

O PASQUIM - Eu acho que é. E você o que acha?
RAUL - Eu acho que tanto Caetano como Gil, embora sendo trabalhos diferentes, são incríveis.

O PASQUIM - Você falou sobre Caetano e Gil, falou sobre Jonh Lennon. E a sua influência do Bob Dylan?
RAUL - Isso é engraçado, todo mundo fala sobre esse negócio do Bob Dylan. Eu gosto de Dylan, mas não foi uma coisa marcante.

O PASQUIM - Ouro de Tolo tem uma influência.
RAUL - A letra de Ouro de Tolo saiu antes da música. Veio a letra primeiro. Eu só podia dizer aquela monstruosidade de letra quase só falando. Então calhou. Aquela coisa de Dylan, falada, calhou.

O PASQUIM - No ato de compor, o que vem primeiro na maioria dos casos, a letra ou a música?
RAUL - Geralmente vêm juntas.

O PASQUIM - Seu espetáculo é a aplaudido com um entusiasmo, digamos assim, com uma zorra total no teatro. Isso pode ser a força de seu recado. Um recado tão forte que o pessoal quer aplaudir, mas o recado ainda está um pouco na frente do momento. O que você acha?
RAUL - Eu não vou dizer por mim, mas Paulo Coelho acha isso. Ele acha que as pessoas ainda estão em dúvida, estão com um certo receio, assustam um pouco.

O PASQUIM - Raul, você falou sobre a sociedade. E outros planos para o futuro?
RAUL - Eu já tô com o meu segundo LP na cabeça. É como um degrau. Eu dividi o trabalho em quatro fases, simbólicas, é claro, dentro daquilo que nós já falamos, de magicismo. Fase Terra, Fase Fogo, Fase Água e Fase Ar. Somente com a identificação. Essa fase fogo vai ser diferente dessa, dentro do mesmo tipo de música, mas não exatamente iê-iê-iê. É outra coisa, eu prefiro que seja surpresa. Vejam depois de pronto. Eu tô seguindo uma orientação geral, em que eu recebo e dou informações. Em todos os quatro cantos do mundo, a gente tá sempre recebendo, tá tendo informações. Essa outra fase é uma fase de escada mesmo. Um lugar que você vai chegando gradativamente, sabendo aos poucos.

O PASQUIM - Basicamente que público você atinge?
RAUL - Todas as classes. Isso é que é bom. Sabe por quê? Eles assimilaram Ouro de Tolo dentro de níveis diferentes, mas no fundo era a mesma coisa. O intelectual recebia de uma maneira, o operário de outra. Lá em casa tá acontecendo uma coisa muito engraçada. Atrás do edifício estão construindo um outro enorme, então os operários cantam o dia inteiro Ouro de Tolo, com versos que eles adaptam para a realidade deles. Eles transformam os versos, dizem: "Eu devia estar feliz por que eu ganho vinte cruzeiros por dia e o engenheiro desgraçado aí..." Eu ouço o dia inteiro eles cantando isso aí. E as cartas que eu recebi da revista POP, que fez uma transação aí, negócio de "Diga o que você acha da música Ouro de Tolo." Veio do Brasil inteiro. Fantásticas aquelas cartas, eu guardo um monte. Eu li essas cartas todas. Todo mundo entendeu, dentro de uma conotação própria, dentro de um nível diferente. Eu achei fantástico isso. Quer dizer que tá funcionando.

O PASQUIM - Você tem algo a declarar para as novas gerações?
RAUL - Não, é uma juventude sadia, alegre, satisfeita, feliz e contente. Comendo alpiste. Amém.